terça-feira, 16 de junho de 2009

Poesia Concreta

Em 1956, a Exposição Nacional de Arte Concreta, realizada na cidade de São Paulo, lançou oficialmente o mais controverso movimento de poesia vanguardista brasileira: o concretismo*.
Criada por Décio Pignatari (1927), Haroldo de Campos (1929) e Augusto de Campos (1931), a poesia concreta era um ataque à produção poética da época, dominada pela geração de 1945, a quem os jovens paulistas acusavam de verbalismo, subjetivismo, falta de apuro e incapacidade de expressar a nova realidade gerada pela revolução industrial.São Paulo vivia então o apogeu do desenvolvimentismo da Era J.K. e seus intelectuais buscavam uma poética ideológica/artística cosmopolita, como tinham feito os modernistas de 1922. Por isso, um dos modelos adotados pelos concretos foi Oswald de Andrade cuja lírica sintética (“poemas-pílula”) representava para eles o vanguardismo mais radical.
* Desde 1952, os jovens intelectuais paulistas vinham procurando um novo caminho através de uma revista chamada Noigandres, palavra tirada de um poema de Erza Pound e que não significa nada.
"Todo o poema é uma aventura planificada"
Em síntese, os criadores do concretismo propugnavam um experimentalismo poético (planificado e racionalizado) que obedecia aos seguintes princípios:
- Abolição do verso tradicional, sobretudo através da eliminação dos laços sintáticos (preposições, conjunções, pronomes, etc.), gerando uma poesia objetiva, concreta, feita quase tão somente de substantivos e verbos;
- Um linguagem necessariamente sintética, dinâmica, homóloga à sociedade industrial (“A importância do olho na comunicação mais rápida... os anúncios luminosos, as histórias em quadrinhos, a necessidade do movimento....”);
- Utilização de paronomásias, neologismos, estrangeirismos; separação de prefixos e sufixos; repetição de certos morfemas; valorização da palavra solta (som, forma visual, carga semântica) que se fragmenta e recompõe na página;
- O poema transforma-se em objeto visual, valendo-se do espaço gráfico como agente estrutural: uso dos espaços brancos, de recursos tipográficos, etc.; em função disso o poema deverá ser simultaneamente lido e visto.

Nascimento, Abdias do (1914)

Abdias do Nascimento (Franca SP 1914). Ator, diretor e dramaturgo. Militante da luta contra a discriminação racial e pela valorização da cultura negra. É responsável pela criação do Teatro Experimental do Negro, que atua no Rio de Janeiro entre 1944 e 1968 e é a primeira companhia a promover a inclusão do artista afro-descendente no panorama teatral brasileiro.
Sua militância política se inicia na década de 1930, quando integra a Frente Negra Brasileira, em São Paulo. Participa, anos depois, da organização do 1º Congresso Afro-Campineiro, com o objetivo de discutir formas de resistência à discriminação racial. No início da década de 1940, em viagem ao Peru, assiste ao espetáculo O Imperador Jones, de Eugene O'Neill, no qual o personagem central é interpretado por um ator branco tingido de negro. Refletindo a partir dessa situação, comum no teatro brasileiro de então, propõe-se a criar um teatro que valorize os artistas negros.
Permanece em Buenos Aires por um ano, estudando junto ao Teatro Del Pueblo. Em 1941, quando volta ao Brasil, é preso por um crime de resistência, anterior à sua viagem. Detido na penitenciária do Carandiru, funda o Teatro do Sentenciado, organizando um grupo de presos que escrevem e encenam seus próprios textos.
Em 1944, no Rio de Janeiro, com o apoio de uma série de artistas e intelectuais brasileiros, inaugura o Teatro Experimental do Negro - TEN, com a proposta de trabalhar pela valorização social do negro através da cultura e da arte. No primeiro ano de funcionamento, o TEN promove um curso de interpretação teatral, ministrado por Abdias, além de aulas de alfabetização e oficinas de iniciação à cultura geral, objetivando a formação de artistas e colaboradores. Em 1945, Abdias dirige o espetáculo de estréia do grupo: O Imperador Jones, de Eugene O'Neill. No ano seguinte, participa como ator de duas outras montagens de O'Neill produzidas pelo grupo: Todos os Filhos de Deus Têm Asas e O Moleque Sonhador. Ainda em 1946, comemorando dois anos de fundação do TEN, protagoniza trecho do espetáculo Othello, de William Shakespeare, com a atriz
Cacilda Becker.
Em seguida, o grupo passa a encenar uma série de novas peças da dramaturgia brasileira, focalizando questões de relevância para a cultura negra. Em 1947, Abdias dirige e atua na primeira peça escrita especialmente para o TEN: O Filho Pródigo, de Lúcio Cardoso, que aborda a questão do negro na forma de uma parábola. No ano seguinte, dirige e atua em Aruanda, de Joaquim Ribeiro, colocando pela primeira vez no centro da representação elementos da religiosidade afro-brasileira. Em 1949, monta Filhos de Santo, de José de Morais Pinho.
Em 1952, encena uma peça de autoria própria: Rapsódia Negra, na qual se apropria da tradição do teatro de revista. Em 1957, participa como ator da montagem de seu segundo texto dramatúrgico,
Sortilégio, fábula moral que fala do preconceito de raça, partindo de uma situação vivida pelo protagonista, a direção é de Léo Jusi. Anos mais tarde, Abdias escreve uma segunda versão dessa peça, a partir de uma estadia de um ano na Nigéria, mesclando a ela aspectos da cultura africana.
Entre 1948 e 1951, Abdias dirige o jornal Quilombo, órgão de divulgação do grupo, que publica também notícias de outras entidades do movimento negro. Em 1949, realiza a Conferência Nacional do Negro, e, em 1950, o 1º Congresso do Negro Brasileiro. Em 1961, publica o livro Dramas para Negros e Prólogos para Brancos, compêndio com peças nacionais que tratam da cultura negra, entre elas as montadas pelo TEN.
Em 1968, devido à perseguição política, Abdias abandona o país, num exílio que dura até 1981. Com a dissolução do Teatro Experimental do Negro, Abdias deixa de atuar e dirigir para o teatro, e sua militância ganha novas formas. Fora do Brasil, atua como conferencista e professor universitário. Publica uma série de livros denunciando a discriminação racial. Dedica-se à pintura, pesquisando visualidades relacionadas à cultura religiosa afro-brasileira. De volta ao país, investe na carreira política. Assume cargos de Deputado Federal e Senador da República pelo PDT, sempre reivindicando um lugar para a cultura negra na sociedade.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Sou negro

Ninguém é branco.
Ninguém é negro.
A cor da pele é apenas um variação de tom.
Mas se alguns dizem ser branco sem problemas,
Eu sou negro.
Não quero qualquer outro nome.
Não aceito a vergonha que me colocam
Pela magnitude do meu pigmento.

Por ser negro excluem que possa ser alemão, chinês ou francês?
Não posso ser?
Mas se nasci em Londres, sou inglês.

Fui colocado em oposição ao branco.
O branco puro e casto
O negro lúgubre e mofino
O meu corpo é negro.

Posso escrever o que vai por dentro
Para ser esquecido em qualquer sítio e sobretudo.
Que me importaria isso?
Pelo contrário.
Não sei para que escrevo nem para quem.
Não estou para ser visto, medido e avaliado.
Quero lá saber de tudo isso.

Não és poesia.
Não és amor.
Não és paixão.
Não és humano.
Não podes ser.
Não vais conseguir nada.
És culpado.

Não és nada.
Não fizeste nada.
Não construíste nada.
Não inventaste nada.

E a minha cultura que foi destruída?
Fui esquecido, fui dominado
E a minha voz que foi silenciada?
Ainda não a consegui encontrar de novo.
E a minha arte que foi roubada?
Já não volta a ser minha.
E as minhas raízes que foram usurpadas?
Não sei quem sou.
Talvez venha dali.Talvez.

O branco inventou a palavra negro, a palavra escravo
No nosso coração gerou ódio, gerou cobiça, gerou inveja
Estragou o nosso paraíso por o querer comprar
E os miúdos pedem nas ruas dinheiro para uma coca-cola
E as cidades são dormitórios ao alto sem água nem luz
A nossa escola não tem porta, nem cadeiras, nem giz
Mas o branco quer vender canetas marcadoras
Em cada poste dependurou-se um homem branco e negro
Abriram-se crianças negras e brancas em espetos de pau
Alvejaram-se brancos e negros que procuravam fugir
Lado a lado como irmãos.

Já não se pode falar de racismo.
Isso não existe.
Ninguém é racista.
Ninguém.
Mas eu sou negro.
O meu corpo é negro.
Sou sim.
Porque branco não posso ser.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Incelença pro amor retirante
(Elomar)

Vem amiga visitar
A terra, o lugar
Que você abandonou
Inda ouço murmurar
Nunca vou te deixar
Por Deus nosso Senhor
Pena cumpanheira agora
Que você foi embora
A vida fulorô
Ouço em toda noite escura
Como eu a sua procura
Um grilo a cantar
Lá no fundo do terreiro
Um grilo violeiro
Inhambado a procurar
Mas já pela madrugada
Ouço o canto da amada
Do grilo cantador
Geme os rebanhos na aurora
Mugindo cadê a senhora
Que nunca mais voltou
Ao senhô peço clemência
Num canto de incelença
Pro amor que retirou.
Faz um ano in janeiro
Que aqui pousou um tropeiro
O cujo prometeu
De na derradeira lua
Trazer notícia sua
Se vive ou se morreu
Derna aquela madrugada
Tenho os olhos na istrada
E a tropa não voltou

Análise:

No texto o eu lírico expõe o sofrimento que a ausência da amiga lhe causa. É possível identificar que se trata de um ambiente rural no trecho em que diz “Geme os rebanhos na aurora” se contrastando com o ambiente cortesão das cantigas de amor. Nesse sentido, o texto apresenta características das cantigas de amigo do período literário trovadorismo.
Sozinho
Caetano Veloso
Composição: Peninha

Às vezes, no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado, juntando
O antes, o agora e o depois
Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho!

Não sou nem quero ser o seu dono
É que um carinho às vezes cai bem
Eu tenho meus desejos e planos secretos
Só abro pra você mais ninguém
Por que você me esquece e some?
E se eu me interessar por alguém?
E se ela, de repente, me ganha?

Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca pra fora
Ou você me engana
Ou não está madura
Onde está você agora?

Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca pra fora
Ou você me engana
Ou não está madura
Onde está você agora?

Análise:

O eu lírico também esta na voz de um homem e se queixa da indiferença da amada. Características das cantigas de amor do período literário trovadorismo
Queixa
Caetano Veloso
Composição: N.Siqueira / E. Neves

Um amor assim delicado
Você pega e despreza
Não devia ter despertado
Ajoelha e não reza

Dessa coisa que mete medo
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado
Disso eu tenho a certeza

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa

Um amor assim violento
Quando torna-se mágoa
É o avesso de um sentimento
Oceano sem água

Ondas, desejos de vingança
Nessa desnatureza
Batem forte sem esperança
Contra a tua dureza

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa

Um amor assim delicado
Nenhum homem daria
Talvez tenha sido pecado
Apostar na alegria

Você pensa que eu tenho tudo
E vazio me deixa
Mas Deus não quer que eu fique mudo
E eu te grito esta queixa

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Amiga, me diga...

Análise:

Neste texto é possível identificar algumas características que estão relacionadas com as cantigas de amor do período literário trovadorismo, o eu lírico esta na voz de um homem que se queixa da indiferença da amada.
O Trovador
Altemar Dutra
Composição: (Jair Amorin / Evaldo Gouveia)

Sonhei que eu era um dia um trovador
Dos velhos tempos que não voltam mais
Cantava assim a toda hora
As mais lindas modinhas

De meu rio de outrora
Sinhá mocinha de olhar fugaz
Se encantava com meus versos de rapaz

Qual seresteiro ou menestrel do amor
A suspirar sob os balcões em flor
Na noite antiga do meu Rio
Pelas ruas do Rio
Eu passava a cantar novas trovas

Em provas de amor ao luar
E via então de um lampião de gás
Na janela a flor mais bela em tristes ais